A imprensa esportiva vive hoje uma fase de exagero. As críticas se voltam e se resumem com base no resultado final de uma partida. Não importa o aproveitamento que o time teve dentro de campo, se teve mais posse de bola ou foi melhor do que o adversário taticamente. Importa quem foi o vencedor, aquele que saiu com os três pontos.
Futebol é sedutor. É o espetáculo de cada final de semana para os apreciadores do esporte. O brasileiro e o futebol têm uma ligação muito forte, a paixão. O torcedor espera que o jogador que defende seu time do coração, tenha atuações de um semideus. Ao escolher esta profissão, o jogador representa uma torcida, uma nação. Acontece que o atleta também é um ser humano, e às vezes nos esquecemos disto.
Como disse o jornalista Mario Filho “o jogador sabe que o que queremos é que eles joguem por nós e para nós, e só por nós, para nós. Para nós a derrota só atinge a nós. Talvez admitamos, para argumentar, se alguém pretender advogar a causa do jogador, que o jogador também perde, também é derrotado, também sofre. Há até fotografias bem sugestivas de jogador chorando feito menino pequeno. Mas as lágrimas de um jogador derrotado não nos comovem. Mais facilmente nos parecem uma prova de fraqueza, uma confissão de culpa. A derrota coloca o jogador no banco dos réus. Tudo se resume na nossa recusa de ver no jogador um ser humano igual a nós. Mesmo quando dizemos este eu fazia, o que queremos não é reconhecer a condição humana do jogador. Pelo contrário: o que queremos dizer é que para perder um gol daqueles o jogador nem devia entrar em campo. Que podíamos entrar no lugar dele. E não procuramos exaltar-nos quando dizemos este eu fazia. Quando queremos reduzir um jogador a zero fazêmo-los à nossa imagem e semelhança, um ser humano com as nossas falhas e fraquezas”. (ANTUNES, 2004).
Assim como os torcedores apaixonados, a mídia está cada vez mais crítica. Times como o Internacional, Campeão da Libertadores em 2010 e atual Campeão Gaúcho, hoje é alvo de duras cobranças, chegou a ser taxado como um grupo ruim por alguns jornalistas. Infelizmente a pressão vem também de dentro do grupo, como exemplo a declaração do técnico e ídolo colorado, Falcão, quando disse: “o atual grupo de jogadores do Inter não tem condições de vencer o Campeonato Brasileiro”. Eu não entendo. O grupo que Falcão se referiu é praticamente o mesmo que conquistou a Libertadores e o Gauchão. Teve a saída do volante Sandro e do atacante Taison, mas ganhou bons reforços como o volante Bolatti e o atacante Cavenaghi.
Com base em quê Falcão chegou a esta conclusão? Em dois resultados ruins pelo campeonato brasileiro? Um empate fora e uma derrota em casa. Exagero! Dois resultados considerados “ruins” não podem tirar a grandeza de um time de uma hora para a outra. Exagero! E a mídia caiu em cima do técnico colorado, não poupando críticas e gerando um clima de crise no Beira-Rio, pois o técnico desacreditou no potencial de seus jogadores com base nos últimos dois resultados do time. Ontem era um timaço, hoje não tem condições de ganhar um campeonato. Vai entender. Mas como diz o jornalista Nando Gross “vivemos o momento do “Jornalismo declaratório”, tudo é levado ao extremo”.
Futebol é decidido nos detalhes. Nem sempre o melhor time em campo sai vencedor. A qualidade técnica é muito importante sim, mas às vezes a sorte acaba por decidir um resultado final. Detalhes. Um jogador que perde um pênalti, por exemplo, é condenado pela torcida e só será perdoado quando fizer no mínimo três ou mais gols para compensar tal falha. É o preço a ser pago para cair de novo na graça dos torcedores. Um exemplo recente foi o lateral Gabriel, do Grêmio, no jogo contra o Vasco pela 5º rodada do campeonato brasileiro 2011 no estádio Olímpico. Primeiro tempo, o Grêmio estava bem na partida, tinha a posse da bola, e ganhou um pênalti a favor. Gabriel bateu e perdeu. Crucificado. Neste mesmo jogo o meio campo do tricolor não estava em uma boa fase, os meias Douglas e Lúcio e o volante Magrão tiveram uma fraca atuação. O goleiro da Seleção Brasileira Victor falhou no lance que levou o gol do Vasco. Mas quem foi crucificado? Gabriel. Um pênalti perdido. Detalhe que poderia mudar a cara da partida. Se Gabriel tivesse convertido a penalidade, a história seria outra.
Nos estádios, vejo torcedor que uma hora intitula jogador X como o melhor do Brasil. Basta um lance errado e os elogios se transformam em palavrões, xingamentos e todas as críticas imagináveis àquele mesmo jogador X. O mais interessante é que naquele mesmo jogo, depois que o mesmo jogador virou a escória do time, se ele faz um gol, o torcedor vira para o torcedor que está do lado e diz: “É um craque! Eu te disse”. Ah a exaltação e o exagero. “A vitória é como uma varinha de condão que transforma um jogador num ente superior” (ANTUNES, 2004).
A educação do torcedor precisa mudar, e logo. O Brasil está para sediar uma Copa do Mundo em 2014. O público esportivo precisa ter educação, apreciar o bom futebol! Xingamentos, críticas injustas, brigas e cobranças precisam ser deixadas de lado. E a imprensa tem que fazer o seu papel. Criticar menos, não ser tão rigorosa e principalmente não se basear em resultados e atuações individuais para gerar sua opinião. Valorizar mais os atletas e o bom futebol, que é um espetáculo.
E cabe a nós, imprensa, reeducar nossos leitores, ouvintes, telespectadores, os torcedores. Concordo plenamente com Nando Gross que diz: “Não é assim (com críticas exageradas) que se analisa futebol. Por isso que tenho insistido, a imprensa precisa se interessar mais pelo jogo. Hoje vale o “jornalismo declaratório” e a estética do exagero.”
Então vamos fazer a nossa parte. Somos sim, apaixonados pelo futebol. Por isso não vamos transformar este esporte magnífico em um campo minado. Jogadores são seres humanos como nós. Eles erram, acertam e precisam do nosso apoio para dar o seu melhor em campo. Chega de sensacionalismo negativo no futebol. Não à crítica exagerada!
Encerro aqui com uma citação para refletirmos.
“Preocupa-me o exagero com que os fatos do futebol estão sendo tratados. É um jogo fascinante e esta análise violenta é totalmente fora de propósito. Quem sabe curtimos mais o futebol e nos estressamos menos?” (Nando Gross).

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