terça-feira, 3 de julho de 2012
Fome de vitória
Arquibancadas lotadas, bandeiras na mão, milhões de vozes e um mesmo grito, um único objetivo: ser campeão. Em campo, onze homens disputam durante 90 minutos a conquista da tão cobrada vitória dos gramados. Para quem torce apenas uma preocupação, para quem joga uma vida inteira de lutas e sacrifícios.
Com 4 anos o menino Saimon Pains Tormen ainda não sabia que um dia seria um desses homens, mas já brigava pelo sonho de fazer parte do espetáculo. Começou em Erechim, jogando na escolinha do ex jogador do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, Odair. Com 16 anos, foi para o antigo clube do mestre, que passou a ser sua casa, se é que podia chamar assim: “fiquei 6 meses morando nos alojamentos do Grêmio. Não tinha nada de conforto, a comida era boa, nada demais, o alojamento era horrível, o chuveiro era gelado, o pessoal roubava coisas, só tinha um cobertor pra cada um no inverno, ar condicionado quebrado, etc.”, conta o jogador, agora com 19 anos atuando no time profissional.
Assim como Saimon muitos garotos abdicam de uma vida ao lado da família, dos amigos e das atividades que envolvem a infância de qualquer menino. Tornar-se um grande jogador de futebol, brilhar nos gramados e um dia chegar a vestir a camisa da Seleção Brasileira, este é o grande objetivo, mas nem todos têm a mesma sorte a mesma garra ou até o mesmo talento. Só no Grêmio, 180 meninos fazem parte das categorias de Base, etapa decisiva para a passagem até o time profissional. Grande parte vem de outros estados e cidades e tem que viver no alojamento, atualmente 70 meninos moram no clube. A rotina não é nada parecida com a de Arthur, 14 anos, torcedor de carteirinha do clube: “acordo 7h30 para ir à escola, almoço e durmo. A tarde costumo andar de skate com meus amigos. Nos finais de semanas vou aos jogos do Grêmio com meu pai ou assisto pela TV. Adoro jogar bola, andar de skate e conversar com meus amigos na internet”, conta.
Já para os meninos do Grêmio o dia mais parece uma marota, uma rotina com regras, compromissos e cobranças diárias. “Trabalhamos com eles desde o início do dia. As 6h30 é o primeiro toque de despertar, 6h45 o segundo, e ai começa a jornada de trabalho de todos. A orientadora social coloca eles em um ônibus disponibilizado pelo Grêmio para levá-los às escolas, que são da rede estadual e municipal. As 11h45 o ônibus retorna para buscar os atletas, que almoçam, descansam em torno de uma hora e vão para a cidade de Eldorado, onde treinam até as 17h30”, conta a Coordenadora do setor Psicossocial do Clube, Jaqueline Volino.
Gustavo Tabalipa, 17 anos, conhece bem a rotina, mora em alojamentos desde os 13 anos. Passou pelo Goias Esporte Clube e hoje está no Esporte Clube Internacional, mas para ele esse esforço pode valer à pena: “estou abrindo mão disso pelo meu sonho, Deus colocou isso no meu coração então vou até o fim”. Para Saimon não é diferente: “é um trabalho que te dá uma grande recompensa, tu fica longe de amigos, família e todo o resto, mas é por um bom futuro, um bom salário, uma condição melhor de vida”.
Mas a busca pelo sonho pode levar a caminhos que não dão certo, como o que aconteceu com o jogador Marcelo Centeno. Com 21 anos, após passar por clubes como Grêmio e Sapucaiense, arriscou a carreia fora do país: “meu empresário conheceu um cara que dizia ser empresário também. Trocaram contatos. Dias depois, ele ligou querendo um atacante forte de velocidade para jogar na Malásia” conta Marcelo. Dois dias após a ligação, o jogador embarcou para com a promessa de jogar em clube chamado Kuala Lumpur Plus, mas ao chegar lá, percebeu que algo estava errado: “já no primeiro dia descobri que no ultimo mês havia chegado cerca de 20 jogadores para fazer teste neste mesmo clube. O lugar não tinha vestiário, apenas um banheiro, mal consegui me vestir”.
Bastaram dois dias de treinos para que a vontade de voltar ao Brasil surgisse, e tudo ficou pior quando o Marcelo teve uma reunião com o Presidente de clube: “Quando fui conversar sobre o meu contrato, eles me falaram da necessidade de ter um jogador brasileiro com a minha qualidade, mas que não iam pagar o valor de R$ 15 mil por mês que haviam combinado, a justificativa era de que eu era muito jovem”. Ao invés disso, o clube ofereceu pagar cerca de 5,500 ringgtin, moeda local, equivalente a R$3 mil reais. Depois disso Marcelo decidiu voltar, na mesma reunião pediu as passagens de volta para o então empresário, Jasper.
Marcelo não conseguiu embarcar, ao apresentar a passagem no aeroporto foi questionado pelo uso do cartão. No dia seguinte, ficou sabendo que outro jogador havia sido preso, numa situação idêntica a sua, tentando embarcar no aeroporto. “Foi ali que percebi que a coisa era feia de verdade”. O jogador foi à embaixada brasileira na Malásia informar o que estava acontecendo, na presença de diversas autoridades como policiais internacionais e agentes da Interpol relatou o ocorrido: “felei que Jasper levava jogadores que nem água para esse clube, sobre os cartões clonados, contei tudo. Mandaram os policiais no hotel onde ele ficava, e ao chegarem lá, viram que ele tinha fugido”. Por sorte, Marcelo não passou pelo pior, retornou ao Brasil em alguns dias com a ajuda da Embaixada Brasileira.
Hoje, sem clube, Marcelo ainda sonha em viver do futebol, e dá dicas para os meninos que estão começando nesse mundo: “é preciso saber realmente com quem esta lidando e trabalhando, sempre ter seu próprio dinheiro, nunca sair de casa apenas com o que lhe disseram e prometeram, pois no meu caso, não gastei em nada, mas poderia ter sido muito pior, muito mesmo.”
Para evitar situações como esta, existe uma forte cobrança dos clubes com relação aos estudos dos meninos, como afirma a psicóloga Jaqueline: “incentivamos e cobramos a escola, porque mesmo que seja atleta tem que ter estudo, mas se não for atleta vai ser o que? Pelo menos tem que sair do Grêmio com ensino médio completo para poder prestar um vestibular. Sempre conversamos e trabalhamos outros caminhos possíveis”, explica. Ninguém melhor que Marcelo para confirmar a afirmação: “A melhor dica é ter estudo, pois sem estudo e sem estrutura teria me complicado muito mais lá fora”. Mesmo com a cobrança, alguns meninos ainda trocam os livros pela bola, no tempo que permaneceu no alojamento, Saimon teve algumas decepções e acabou abdicando, também, dos estudos: “eu sempre estudei em escolas particulares. Aí cheguei aqui no Grêmio e me colocaram numa escola que tentavam assaltar a gente todos os dias, aí larguei, parei no segundo ano do ensino médio”. Para o jogador a grande preocupação do clube é com o desempenho do atleta nos gramados: “O Grêmio é um clube de futebol, desde que tu renda pra eles. O que eles querem é ver resultados dentro do campo, não importam os estudos”.
Jaqueline explica que há um acompanhamento direto com as escolas, além de aulas particulares realizadas uma vez por semana para esclarecimento de dúvidas e auxílio nas atividades escolares: “Nós fazemos todo acompanhamento escolar, indo a reuniões, etc. Sempre que vamos à escola conversamos com as famílias, para que eles dêem um apoio, principalmente quando o atleta apresenta dificuldades. Três vezes por semana eles têm um reforço escolar de um professor particular que tira dúvidas e ajuda nas tarefas”.
O jogador do União Desportiva de Leiria, de Portugal, Tiago Fernandes, que começou no futebol com 6 anos e já morou em três clubes diferentes, defende a valorização da escola: “O estudo é tão importante quanto o futebol. Quando eu cheguei no Inter (Sport Club Internacional) já tinha o Ensino Médio concluído. Meus estudos sempre foram responsabilidade da minha família, mas para os meninos que ainda estão estudando, o clube acompanha, tem uma van que leva e busca todos os dias, tem todo esse controle”. A busca pela realização do sonho às vezes acaba com as novas possibilidades. “Não tenho plano B. Se Deus quiser vai dar certo. Penso sempre que vai dar certo nunca penso que não vai dar. Minha vida é o futebol”, diz Gustavo sobre suas expectativas.
Várias questões devem ser trabalhadas para que não hajam frustrações: “sempre conversamos e trabalhamos outros caminhos possíveis. Tem aqueles que precisam de atendimento mais pontual sobre a frustração, mas eles sabem que estão em uma escola, uma escola de futebol na verdade. Hoje eles podem ser o melhor da categoria mas amanhã ou no ano que vem podem nem estar mais jogando”, afirma Jaqueline. Além disso, quando o menino entra no clube passa por avaliação psicológica, social e escolar, como explica a psicóloga: “quando eles são aprovados eles passam por uma série de testes psicológicos para verificar o momento atual do atleta, a nutrição faz uma avaliação alimentar e o serviço social faz o perfil sócio familiar e começa a recolher dados da escolaridade do atleta.”
Para o Coordenador Administrativo das Categorias de Base, MauroRocha, nenhum trabalho é suficiente para lidar com essa questão: “Não tem trabalho que prepare para isso. Eles são expostos a uma série de coisas que tem que ser estudadas. Tudo isso que nós trabalhamos aqui é pra minimizar e se aproximar das possíveis chances do projeto dar certo, garantia e certeza de resultado positivo é impossível”.
Com todas as dificuldades que eles enfrentam como a distância da família e amigos, viver cumprindo regras, horários e compromissos, eles ainda têm que superar a concorrência cada vez mais forte com os outros jogadores. De acordo com Mauro, o clube passou a dispensar o atleta que não atinge o nível de rendimento desejado: “Trabalhamos a qualidade e não quantidade. Os plantéis se reduziram, eles tem no máximo 32 jogadores com os 4 goleiros, então ficou mais difícil fazer parte de cada categoria, porque a gente acredita muito no poder de adaptação do treino, e para o treino causar adaptação, o atleta diariamente tem que participar de forma bem intensa.” Com isso, muitos meninos são dispensados do clube, às vezes com 17 anos de idade, quando estão quase atingindo a categoria Juniores, que leva ao time principal.
Auxiliando os meninos existem os anjos da guarda, profissionais que acompanham o trabalho deles avaliando o rendimento e as necessidades de cada um. São 4 profissionais trabalhando nas áreas de psicologia, nutrição, assistência social e massagista, uma comissão técnica que conta com mais 6 profissionais, entre eles Assessores de futebol, Coordenadores técnicos, avaliadores e monitores, há monitoramento 24 horas no alojamento. De acordo com Mauro, o investimento do clube mensal para cada jogador gira em torno de 3.700 reais, sem incluir a ajuda de custo e salário, o gasto por ano com as Categorias de Base chega a 8 milhões.
Os meninos menores recebem uma quantia irrisória, com 16 anos podem firmar um contrato de Jovem Aprendiz, onde passam a receber um salário fixo. Mauro acredita que este também pode ser um fator prejudicial para a carreira do atleta, quando passa para o profissional os valores mudam e o jogador que ganhava 3 mil por mês passa a ganhar 150 mil repentinamente: o comportamento tem ligação com o dinheiro que eles ganham, para suportar e lidar com grandes somas é preciso ter um grande amadurecimento e entendimento da vida, se não eles se perdem”, e mesmo toda dedicação da equipe que acompanha o atleta pode não preencher essas necessidades: “Pode usar toda multidisciplinaridade de conhecimentos nas áreas psicológicas, pedagógicas, de desenvolvimento físico, treinamento, cultura financeira, a gente procura dar aqui uma gama de conhecimento”.
Acima de todo esse trabalho nada é mais forte do que a esperança do torcedor, que vai ao estádio a espera de uma vitória, quer ver o do novo jogador que passou para o profissional e é a grande promessa para o próximo campeonato. Atrás disso muito trabalho e dedicação, preparação constante para satisfazer as milhões de pessoas que lotam os estádios a espera de um título. “Nós não podemos trabalhar como o torcedor que vem em um jogo e vai embora falando que aquele jogador é bom ou é ruim porque ele ficou com a impressão do jogo, isso ele tem direito, torcedor pode tudo, ele paga o ingresso, vem se diverte, não tem o compromisso. Nós que somos pagos pelo clube para prospectar novos talentos temos que ser altamente responsáveis e preparados”, afirma Mauro. Mas a força de vontade desses meninos parece superar todas as dificuldades que eles têm que enfrentar até que um dia possam desfrutar do sonho. Neste aspecto existe uma coincidência entre quem torce e quem joga: a fome de vencer.
*Matéria realizada na cadeira de Jornalismo Investigativo do Centro Universitário Metodista do IPA - Junho 2012
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